Virtual presidente da Bolívia é antítese de Evo na formação e no jeito político

LA PAZ, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) – O perfil pouco afeito ao confronto foi determinante para a escolha de Luis Arce, 57, como candidato à Presidência na Bolívia. O temperamento mais ameno do que o do ex-presidente e padrinho político Evo Morales deve ser uma marca do novo líder do país, caso as projeções de boca de urna sejam confirmadas. Nas assembleias que o MAS (Movimento ao Socialismo) realizou para escolher quem disputaria o pleito, o nome de Arce se destacava não só pela atuação como titular da Economia, mas também pelo perfil afável. A base do MAS e organizações sociais, por outro lado, preferiam o nome de David Choquehuanca, que acabou como candidato a vice na chapa da legenda. “Talvez o próprio Evo o preferisse, mas creio que a estratégia foi bem pensada. Sabia que Choquehuanca teria alta rejeição e poderia competir com a personalidade dele, por isso apostou em Arce”, diz o cientista político Pablo Stefanoni. Nas últimas semanas de campanha, Arce buscou se descolar de Evo, talvez em um gesto aos anti-evistas ou porque, de fato, pretende ser um presidente diferente do que foi o padrinho político. Quando, na semana passada, Evo atacou a imprensa por “participar do golpe contra ele em 2019” e sugeriu “fazer algo com os veículos para que trabalhem em favor da Bolívia”, Arce disse no dia seguinte que discordava da posição do ex-presidente e que “uma imprensa livre é essencial para a democracia”. A jornalistas, na madrugada de segunda, o virtual presidente boliviano ainda fez autocríticas. Disse que o MAS “corrigirá seus erros numa nova administração” e que “aprendemos com o tempo e a experiência”. Também na última madrugada, em discurso a militantes do MAS que celebravam a provável vitória diante da sede do partido, em La Paz, Arce não mencionou o nome de Evo, distensionou a polarização e afirmou que seu governo seria para “todos os bolivianos, para recuperar juntos a democracia e a esperança”. Luis Arce nasceu em 1963, em La Paz, filho de professores de ensino médio. Estudou economia na Bolívia e fez mestrado na Universidade de Warwick, no Reino Unido, entre 1996 e 1997. Ao retornar à Bolívia, trabalhou no Banco Central, em um cargo técnico. Também passou a dar aulas na Universidad Franz Tamayo e foi professor convidado na Universidad de Buenos Aires, na Argentina, além de em Harvard e Columbia, nos EUA. Desde essa época, considerava-se um socialista e dizia que as políticas neoliberais eram prejudiciais para o país. Não se tornou, porém, militante de nenhum partido. Entrou na política quando Evo o nomeou ministro, em 2006. À frente da pasta de Economia, promoveu políticas de incentivo ao mercado interno, de estabilidade cambial e de modernização da exploração de recursos naturais. Arce foi responsável pelos processos de nacionalização da exploração de petróleo e de gás natural, os maiores responsáveis pelo crescimento do PIB boliviano -de US$ 11,45 bilhões (R$ 64,22 bilhões), em 2006, para US$ 40,89 bilhões (R$ 229,17 bilhões), em 2019. Uma crítica que se faz ao modelo implantado por Arce, entretanto, é que a Bolívia não modernizou sua economia e ficou muito dependente das exportações de matérias-prima e energia. A estratégia funcionou bem durante o “boom das commodities”, mas, quando o ciclo terminou, o país não tinha construído uma alternativa para a nova situação. Para resolver a crise econômica na Bolívia, país muito atingido pela pandemia do coronavírus e que tem previsão de queda de 6% no PIB deste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional, Arce sugere uma política de subsídios a empresas estatais, modernização da relação com as empresas privadas e uma série de ajustes, embora afirme que eles serão feitos “com responsabilidade e justiça social”. Ele se afastou temporariamente do cargo em 2017, para se tratar de um câncer no rim, o que fez no Brasil. Questionado sobre sua saúde pela Folha, disse estar bem, mas que pela primeira vez faltou a um dos controles semestrais, “devido à campanha e ao adiamento seguido das eleições”. Afirmou também que ir ao médico em São Paulo é uma de suas prioridades após o pleito. O fato de Arce ser membro da classe média de La Paz causou certo incômodo no núcleo duro do MAS, que preferia Choquehuanca. Nos comícios, o ex-chanceler mostrava maior facilidade para falar em público, enquanto o ex-ministro, mais calmo, carregava tom menos inflamado que o do companheiro de chapa. Choquehuanca, por sua vez, é um defensor aberto do regime ditatorial de Nicolás Maduro na Venezuela. Tem vínculos fortes com sindicatos indígenas no altiplano boliviano e é de origem aimara, assim como Evo. Nasceu em uma pequena comunidade indígena na beira do lago Titicaca e, também como o ex-presidente, só aprendeu a falar espanhol quando começou a frequentar a escola. Estudou filosofia na universidade Simón Bolívar, curso que não completou porque preferiu ingressar na política. Nos anos 1980, viveu em Cuba e estabeleceu laços com Fidel Castro.

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