Sem renda e moradia, famílias invadem imóveis abandonados no centro do Rio

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Acostumada a trabalhar com o marido nas portas de boates e de locais como o Maracanã, a ambulante Thaís Cristina Nascimento, 29, viu sua renda secar com a pandemia do novo coronavírus e a consequente suspensão de eventos. O casal, que morava na Baixada Fluminense, já não teve mais condições de cuidar dos quatro filhos e três enteados e pagar o aluguel de R$ 750. Sem opção, desde maio Thais e o marido vivem com os sete, com idades entre um mês e 15 anos, em uma invasão no centro do Rio. Assim como essa família, outras que perderam suas rendas e casas durante a pandemia também passaram a morar em ocupações da cidade. Prédios velhos e abandonados têm servido de abrigo para quem já não têm mais a quem recorrer. Os desabrigados da pandemia se dividem entre novas e antigas invasões. Thaís e outros ambulantes ocuparam um prédio abandonado na rua Marechal Floriano em maio. O imóvel de três andares, sem água encanada e com luz por meio de um gato, chegou a abrigar 14 famílias, com 22 crianças. “Minha casa tinha dois quartos, sala, cozinha, banheiro e até terraço. Mas, com a pandemia, não conseguimos mais ganhar dinheiro. Teve dia que faltou leite para meu filho de um ano. Não tinha como pagar o aluguel e comprar comida”, disse Thaís. A ambulante, que foi grávida para a ocupação, ainda não conseguiu registrar o caçula de um mês por não ter comprovante de residência. “Tive meu bebê na mesma maternidade que ganhei minha outra filha de oito anos. No papel que o hospital me deu, consta meu endereço daquela época que já não tenho mais como comprovar”, disse ela, que conta com o auxílio emergencial do governo federal para sobrevivência. O dinheiro chegou quando ela já estava na ocupação. Segundo os moradores, o lugar -que parecia ser uma padaria antes de abandonado- tem apenas um vaso sanitário em funcionamento. Há um fogão e a alimentação é feita de forma comunitária. Não há camas nem móveis, os dormitórios são improvisados em colchões espalhados pelo chão entre entulhos de obra. Também da Baixada Fluminense, a costureira Pamela da Silva, 32, foi morar na ocupação com o marido e os dois filhos, de seis e nove anos, depois de perder tudo o que tinha na pandemia. “Eu morava em uma casa na beira de um valão. Na última chuva forte, perdi tudo o que tinha em casa. Meu marido trabalha como catador de reciclável e não estava conseguindo trabalho por causa da pandemia”, disse. Ela recebe R$ 1.200 mensais, provenientes do auxílio emergencial e do Bolsa Família, e disse que o valor é insuficiente para pagar aluguel, sustentar as crianças e repor o que perdeu em casa. “Vivo com medo de ter que sair daqui de uma hora para outra, não posso ficar na rua com os meus filhos”, afirmou. A professora Rosangela Damasceno, 59, também buscou abrigo na ocupação. Antes da pandemia, ela trabalhava vendendo sanduíches e lanches em feiras. Como a atividade nas praças chegou a ser suspensa pela prefeitura, ficou sem clientes. “Estava morando em um quarto com banheiro em uma comunidade. Consegui negociar o aluguel por R$ 300 ao mês. Mas não tive como pagar, meu auxílio emergencial demorou a sair. Esse dinheiro também não dá para eu pagar o aluguel e me alimentar.” Na última quinta-feira (13), as famílias de Thais, Pamela e Rosangela tiveram problemas com pessoas alcoolizadas na ocupação e foram para outro imóvel no centro, na rua Ramalho Ortigão. A invasão, que foi iniciada em janeiro, tem recebido famílias sem destino durante a pandemia. “Tenho seis filhos pequenos. Se eu não ficar nessa ocupação, vamos morar na rua. Tenho muito medo de perder minhas crianças”, diz a ambulante Ingrid Soares, 28, que divide um colchão de casal com seis filhos num dos barracos de madeira montado no local. Já Kelly Ambrósio, 38, diz que o local tem 15 famílias, com 56 crianças. “Não deixamos ninguém na rua. A ocupação só tem crescido depois da pandemia”, afirmou. O ativista social e ex-morador de rua Léo Motta foi procurado por moradores da ocupação que pedem ajuda para serem inseridos em projetos sociais. “A rua é casa de muitos, mas não deveria ser de ninguém. Há poucos meses, novos rostos estão chegando. São pessoas que, recentemente, perderam a renda e seus endereços. E por falta de políticas públicas como aluguel social e abrigos acabam em ocupações”, disse. De acordo com Motta, muitas vezes, as ocupações são ambientes insalubres: “Eles dividem o espaço com pessoas que nunca viram antes, com ratos e baratas. Falta tudo, alimentos, roupas, documentação e até atendimento médico. A fome não é só de comida, mas também de oportunidades.” A prefeitura informou, por meio da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, que mobilizou uma equipe do Cras (Centro de Referência de Assistência Social) para ir até os locais das invasões. Conforme a prefeitura, quando as famílias são beneficiárias de programas de transferência de renda do governo federal, também são acompanhadas pelo Cras. “De toda forma, as equipes estão indo até os locais para ver se existem novas demandas e atualizar as situações de todos os presentes nas ocupações. Através do Cras também ocorre a inscrição no programa de aluguel social, o que só acontece em casos de calamidade”, diz nota da prefeitura.

Deixe um comentário