Campanha causa reflexão ao expor publicamente o preconceito de artistas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Numa sala ocupada por pessoas sentadas em círculo, uma cadeira vazia e iluminada, no centro da roda, serve como artifício na sessão de terapia coletiva fictícia. Quem a ocupa precisa colocar para fora preconceitos velados que poucos têm a coragem de admitir que os carregam. A atriz Nany People, 55, aceitou o desafio. Neste sábado (15), a artista vai dizer ao mundo o seguinte: Sou uma LGBTfóbica em desconstrução. O grito de Nany ganha volume a partir do texto de letras garrafais em vermelho acompanhado de um manifesto e da foto que registra o momento em que a atriz “sai do armário”. No dia 8, Nany já havia se sentado na mesma cadeira para revelar uma outra verdade: sou uma racista em desconstrução. Logo ela, que se consagrou na noite paulistana como drag queen, foi repórter de Hebe Camargo (1929-2012) debaixo das camadas de maquiagem carregada de sua personagem e, anos mais tarde, concluiu um processo de transição de gênero para tornar-se uma mulher trans. “Não se espante, meu bem, eu carrego traços de preconceito. Admiti-los é a maior mudança que eu posso fazer por mim mesma e para o outro”, diz a atriz. Nany se juntou ao humorista e apresentador Fábio Porchat, ao padre Júlio Lancellotti, à cantora Fafá de Belém, entre tantos outros nomes conhecidos, no movimento “Em Desconstrução”. A primeira fase da campanha começou pelo racismo, vai passar pela temática da LGBTfobia e discutir o machismo –este último tema será tratado no dia 22. E sempre da mesma forma: figuras públicas admitindo em primeira pessoa seus preconceitos e escancarando isso nas próprias redes sociais. E quando cai nas redes sociais, o preconceito abordado na terapia inventada é discutido de forma coletiva. Nany chama o processo de “o tribunal da vida”. “Poucos fazem isso, porque têm medo do crivo da crítica, da retaliação. É mais confortável não dizer.” Quando a atriz admitiu ser uma “racista em desconstrução”, o post da campanha recebeu 12,4 mil curtidas e comentários como: “Jura que você é racista? Mas como, trazendo tantos traços negros? Com ancestralidade negra?”, questionou uma internauta. A atriz chama a atenção para seu ranço LGBTfóbico quando fala da demora em virar mulher trans —o processo só foi concluído quando Nany tinha 37 anos. A artista também admite que teve, sim, preconceito em se relacionar com “bichas pintosas”, os ditos gays afeminados. “A sociedade impõe esses modelos e a gente acaba rezando isso. Mas chegou a hora de revisar tudo”, diz. Mostrar uma pessoa conhecida falando abertamente sobre o próprio preconceito cria um efeito de proximidade, diz o designer Marcos Guimarães, o idealizador da iniciativa. “É como se a própria Nany estivesse falando de seus preconceitos para quem está vendo a foto.” “Cria um impacto que não se dilui numa campanha que poderia ter sido ser feita por grupos de pessoas. Achamos que, dessa forma, a mensagem que chega propicia reflexões”, completa Guimarães. A campanha também buscar fazer um match entre instituições que lidam contra os problemas retratados e pessoas e empresas que estão dispostas a ajudar nas causas. Símbolo da Pastoral do Povo de Rua, em São Paulo, o padre Júlio Lancellotti, 71, aceitou emprestar sua imagem à iniciativa para mandar um recado. “LGBTfobia é crime. São pessoas como eu, você. Apenas pessoas”, diz. Lancellotti diz que o preconceito está tão impregnado na sociedade que, quando faz atendimentos a LGBTs em situação de rua, costuma ouvir dos assistidos: “Você não vai dizer que somos do demônio?”. O religioso, rápido, diz sempre responder: “Não! Vocês são a imagem e a semelhança de Deus”. Assim que a primeira fase do projeto terminar, outros temas virão, diz Guimarães. “Mas esses três primeiros já se entrelaçam em tantas outras problemáticas. No machismo, por exemplo, um subtema é a violência contra a mulher.” Para Nany People, soltar verdades em plena pandemia do novo coronavírus, quando todo mundo, segundo ela, deveria entrar no modo “revisão da vida”, é um avanço. “A gente vem repetindo modelos de comportamento que achamos que são para nós. Quando não são. Chegou a hora de rever preceitos, conceitos e preconceitos. Não dá mais para blefar”, diz a artista.

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