Brasil foi onde Elizabeth Bishop se descobriu, dizem escritoras

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A biografia brasileira de Elizabeth Bishop, para usar uma expressão da escritora Marilene Felinto, foi o assunto que dominou o segundo debate do ciclo sobre a autora homenageada da próxima Flip, feito em parceria com o Sesc. A conversa virtual entre Felinto, colunista da Folha de S. Paulo, e a poeta Alice Sant’Anna, que edita os próximos lançamentos da americana pela Companhia das Letras, foi mediada por Fernanda Diamant, curadora do ciclo e da festa literária de Paraty, que pela primeira vez em 18 anos homenageará uma escritora nascida fora do Brasil. Felinto começou a conversa, aliás, saudando a escolha de Bishop como revolucionária e de caráter visionário. Citou o filósofo Paul Preciado, que segundo ela tinha topado antes da pandemia comparecer à Flip, para dizer que o debate acerca da poeta celebraria “a aceitação do outro como ele é e como escolheu ser”. As críticas à escolha, segundo Felinto, foram reducionistas, já que não davam conta do tamanho de Bishop e de sua poesia –boa parte da qual produzida no Brasil. Sant’Anna, que entre outros livros trabalha na edição de uma biografia da poeta escrita por Thomas Travisano, sublinhou o caráter nômade da vida de Bishop até o desembarque no porto de Santos, onde deveria passar poucas semanas, mas que foi pontapé inicial de uma estadia de quase 20 anos. “Conhecer a Lota de Macedo Soares foi revolucionário na vida dela”, disse, em referência à arquiteta carioca que se tornou sua companheira. “Ela fez aquela que foi a primeira casa construída para Bishop, com um estúdio pra que ela pudesse se concentrar em seus textos e aquarelas. Esse encontro teve um significado importantíssimo, foi o momento em que ela se sentiu verdadeiramente acolhida.” Antes de se estabelecer aqui, a americana pulou de casa em casa em seu país natal. Tendo ficado órfã muito cedo, foi levada a morar com os avós e na casa de de um tio que, depois se soube, abusava de Bishop. “Isso fez com que ela tivesse ojeriza a homens por muito tempo”, comentou Sant’Anna. “Demorou para que pudesse confiar novamente num homem, ter amizade verdadeira com um.” A poeta lembrou uma carta da americana que revela algo que guarda relação direta, também, com sua obra. Em referência ao tio, escreveu: “O que mais me dava repulsa na crueldade dele era o sentimentalismo. Acho que essas duas coisas sempre andam juntas”. Felinto, que fez reportagens de fôlego sobre a passagem de Bishop pelo país para uma edição especial do extinto caderno Mais! da Folha de S. Paulo -textos, aliás, contra os quais elencou uma série de ressalvas, como lacunas biográficas e “um tom de fuxico jornalístico” que aprendeu a detestar–, afirmou que a imersão na cultura brasileira fez muito bem para a poeta. “A Bishop passou a conviver com uma cultura menos sisuda que a americana, nessa sociabilidade brasileira anárquica, mais esculhambada, que permitia a ela viver sua orientação sexual de maneira mais aberta, apesar de todas as restrições da época”, apontou. “Foi muito importante pra ela se descobrir como pessoa e como mulher.” O ciclo de debates sobre a autora, com inscrições gratuitas, continua até o próximo dia 21, em mais sete encontros no total. É preciso se inscrever para as mesas, no site do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, dois dias antes de elas acontecerem. Nesta quinta, conversam as tradutoras Stephanie Borges e Flora Thomson-DeVeaux. Na sexta, é a vez do cronista Humberto Werneck debater com o artista plástico José Alberto Nemer, que foi amigo de Bishop.

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