Vereadora de Vitória (ES) é censurada por colega ao usar blusa que deixa ombro à mostra

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GONÇALVES, MG (FOLHAPRESS) – Uma vereadora do PSOL de Vitória, a capital do Espírito Santo, foi censurada por um colega por causa da roupa que vestia durante sessão realizada na Câmara Municipal, na manhã desta segunda-feira (8). Camila Valadão, 36, cumpre o primeiro mandato e foi a segunda mais votada entre os 15 vereadores eleitos para a atual legislatura. Vestida com uma blusa vermelha que deixava um dos ombros descoberto, a parlamentar cumpria a função de vice-presidente da Casa na sessão ordinária de forma simbólica por causa do Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda. A mesa diretora era presidida, também simbolicamente, pela vereadora Karla Silva Coser (PT). Desde 1989, a capital capixaba não elegia mais de uma mulher para a Câmara Municipal. Por volta das 10h, no início da sessão que discutia alguns procedimentos internos para o funcionamento do órgão, o vereador Gilvan da Federal (Patriota) questionou o traje usado por Valadão, composto por uma blusa e calça jeans. “Creio que os vereadores aqui têm que estar com traje formal. E, na minha opinião, a vereadora não está com traje formal para a sessão”, disse ele. Valadão tentou explicar que não existia nenhuma norma sobre o assunto, mas foi interrompida pelo parlamentar, que disse que não havia terminado de falar. Gilvan da Federal apresentou mais duas reclamações contra a parlamentar, que faz oposição ao prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos). “Questão de manifestação política: gostaria de saber o motivo do adesivo que está no peito da vereadora”, disse o parlamentar. Valadão utilizava um adesivo com a impressão do rosto do presidente Bolsonaro (sem partido) com a inscrição “fora, Bolsonaro! Pela vida das mulheres” fixado em sua blusa. Gilvan também se incomodou pelo fato de a parlamentar usar a expressão “todes” nos seus cumprimentos durante a abertura da sessão. O “todes” está sob o guarda-chuva da linguagem não binária e atende a uma reivindicação de pessoas que dizem pertencer ao gênero neutro. “A questão de ‘todes’, já que vocês dizem que são da inclusão…eu não me sinto incluído nesse bom dia, vou deixar bem claro. Vou deixar bem claro para vocês que esse ‘todes’ não existe e é um desrespeito com esse parlamento”, afirmou o vereador. Karla Coser, que presidia a sessão, questionou o colega sobre se existia algum artigo do regimento interno que versava sobre trajes e manifestações políticas individuais dos vereadores, mas não pôde seguir sua contestação porque havia mais um vereador inscrito para falar. “Feliz Dia Internacional das Mulheres. Mas, vereadora Camila, só te corrigindo: é bom dia a todos e a todas. ‘Todes’ não figura na língua portuguesa e não está no dicionário. Então, assim, vamos ter respeito, seriedade e liturgia ao cargo”, disse Armandinho Fontoura, do Podemos. Respeitando a ordem das falas de Gilvan e Armandinho, a vereadora Camila Valadão disse em plenário que “na minha fala eu estou percebendo uma censura”. “Eu posso não só utilizar a língua formal, como toda a pluralidade da língua. Então, eu posso incluir, todos, todas e todes.” “Mas você utilizou tudo isso porquê?, questionou outro parlamentar. “Por que eu gosto do “todes” por considerá-lo plural”, respondeu Valadão. Sobre o adesivo que pedia a saída de Bolsonaro, a vereadora disse que o estava utilizando pelo mesmo motivo que o seu colega, Gilvan, fazia uso de uma máscara de proteção do rosto que continha uma imagem da bandeira do Brasil, de um lado, e do rosto do presidente, de outro. “Tá no meu corpo, e eu posso utilizar”, disse. “Manifestação individual está permitida”, disse. Já sobre a blusa, disse a vereadora, “não vejo nada e nenhum motivo pelo qual eu não possa usar”. “Aliás, vereadores, já estive com essa blusa em várias sessões e em nenhum outro momento houve comentário sobre a minha roupa. Curioso que isso aconteça no Dia Internacional da Mulher”, afirmou. O trecho da discussão, que foi gravado, termina com um dos parlamentares dizendo: “quem quer respeito, se dá o respeito”, mas sem ter sido mostrado na gravação. Outro colega, no entanto, conclui: “vereadora Camila, vossa excelência está linda”. Em entrevista à reportagem, Valadão disse que o objetivo dos colegas foi “expô-la publicamente para constrangê-la”. “Sou a primeira vereadora negra eleita de Vitória e sei que a minha presença incomoda.” “Essa situação só mostra que ainda estamos distantes de um mundo ideal. Veja: é 2021 e ainda tem gente atacando mulheres por causa das roupas que elas vestem”, afirmou. Valadão disse também que vai definir com seus assessores jurídicos se ingressará com uma queixa contra o vereador que questionou publicamente o uso de seus trajes.

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